A realidade que não interessa, a mesa do lado e o autocarro que não saiu da paragem
Medium | 27.01.2026 07:26
A realidade que não interessa, a mesa do lado e o autocarro que não saiu da paragem
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A realidade que não interessa
É curioso como o sopro do tempo interpreta cada insubmissão à injustiça como excentricidade. A defesa de um salário digno ou a denúncia da especulação imobiliária não encaixam no discurso da ortodoxia crescente no espaço público.
Os agora atraentes ditames liberais ridicularizam-nos numa sobranceria de faz prevalecer a voz privilegiada e insensível e naturais deslumbrados, ascendidos ao conforto financeiro, com pretextos de economês de pacotilha.
Passou a ser uma extravagância de radicais revolucionários defender a proporcionalidade entre trabalho e esforço despendido e rendimento. Com a cómoda justificação da falta de produtividade. A mesma produtividade, agora em sentido positivo, que serve para apresentar os portugueses como os mais competitivos em vários sectores de actividade.
Pela mesma ordem de razões algumas pensões e apoios sociais continuarão miseráveis e iníquos, com distribuição em função de critérios dúbios e das reivindicações dos mais barulhentos. Nunca por um critério geral de justiça, de correspondência entre trabalho prestado e recompensa ou de efectiva incapacidade para o trabalho.
Com a mesmíssima falta de razoabilidade alimenta-se pela sonda a função pública a cada série de notícias encomendadas nas televisões pelas corporações de médicos, enfermeiros, professores, polícias etc. Até ao definhamento total do aparelho digestivo do Estado.
Passou a ser legítimo negar o acesso à habitação a parte dos cidadãos com a cobrança de exorbitâncias pela venda e arrendamento dos imóveis sem correspondência com os custos de construção, manutenção e fiscais, até porque nada mais colhe senão a lei da procura e da oferta e a defesa dos interesses de percentagem elevada de cidadãos com presença influente no espaço público que beneficia da exploração imobiliária.
Nem vale a pena voltar a estes temas quentes há dois e três anos na sociedade portuguesa, cuja preocupação levantei há cinco ou seis anos no blog Comezinhas. São ridicularizados por pertencerem ao leque de reivindicações da esquerda.
E como é sabido entre nós os temas não valem por si, mas pela facção de argumentos a que se pertence. E vale o maniqueísmo para distorcer a justiça. Vale tudo se for para favorecer o flanco ou tribo a que se pertence por genética — as opiniões parecem ser herdadas como o sangue. Isso de questionar e pensar pela própria cabeça e, sobretudo, pensar no bem comum dá imenso trabalho.
Defender a justiça está fora de moda. Não é chic.
A mesa do lado
Às vezes dou por mim a pensar nas razões para escrever sobre a vida comezinha e espelhar a minha vida e fragilidade.
Há uns dias alguém contava presencialmente com algum pormenor uma rixa passada há anos à porta de uma discoteca portuense. Ouvi calada. Uma das pessoas envolvidas ficou em mau estado. Não disse nada perante o relato, mas o facto é que conheci a pessoa que sovou. Entretanto já morta. Fui apresentada numa tarde de estudo por uma colega de faculdade no Largo de São Domingos. Não troquei mais do que as palavras de apresentação e nunca mais o vi. Essa colega tinha contacto com gente pouco aconselhável como a vida lhe mostraria mais tarde. A esse indivíduo estava ligada uma rede criminosa da “segurança” da noite portuense. Mais tarde, por razões profissionais, tive de lidar com um dos elementos do “grupo” e competia-me a posição ingrata de ter de me impor (com distância física). Resultado óbvio: recebi insultos e ameaças.
Às vezes não me apetece falar do que acontece na mesa do lado. Está demasiado descrito nos telejornais, nos relatos diários das redes sociais, nas conversas de todos. Tenho pouco a acrescentar além dos óbvios: sim, eu sei. Também estava lá, e vi. Estamos todos. Vivemos todos no mesmo mundo. Gosto do testemunho, mas a minha ideia de registar o que observo passa mais por relatar o que está para lá do que todos têm a tentação de dizer. É uma pretensão como outra qualquer.
Prefiro voltar à vida simples e autêntica longe dos temas empolgantes dos telejornais ou das crónicas com pique estimulante (passe a redundância). Sou uma perigosa roussiana, quiça próxima de jacobina. Os novos tempos preocupam-me. Não me agrada o afastamento do princípio da igualdade não só por uma questão de educação, mas de práticas efectivas que vão contra a liberdade e igualdade dos seres humanos.
Prefiro falar da cor dos guardanapos, do gato, do meu atabalhoamento e narcisismo, da aversão à gabarolice e redes de trocas de favor. Prefiro esmiuçar o meu umbigo, mostrar as minhas falhas e os defeitos dos outros, raramente expostos por estarem tão incrustados na sociedade (portuguesa) e por isso escondidos por conivência. Numa sociedade mais à vontade a observar e contar o que se passa na mesa do lado do que a olhar para as imperfeições da própria mesa. Em suma, tenho muita lábia.
Prefiro retratar o comezinho com a estranha sensação de ser a forma de testemunhar a realidade em que vivo em tempo real para lá do visível no espaço público.
O autocarro que não saiu da paragem
Hoje deparei-me com uma situação recorrente dos transportes públicos do Porto — STCP. Estão as paragens cheias de gente. Os autocarros parados nelas no horário de saída e ficam os motoristas na conversa sem darem qualquer explicação a quem espera. Quando interpelados lá justificam: este não é o das 19h15. E nós bovinamente aceitámos tudo. Esperámos, vamos à procura de outra linha, chamámos Uber, decidimos fazer o percurso a pé. Temos ampla liberdade para ser lorpas.
Este comentário também não é chic. Nem tem interesse. É feito todos os dias pelas muitas empregadas domésticas que fazem a viagem no mesmo autocarro.