O que aprendi (até agora) no semillero “de pirámides, de historias, de amores y, claro, desamores”…
Medium | 30.12.2025 00:52
O semillero zapatista “de pirámides, de historias, de amores y, claro, desamores” fala sobre as pirâmides da história, sendo a pirâmide madre o sistema capitalista. O sistema capitalista é também uma hidra de várias cabeças, que quando se corta uma, nascem duas mais. Por isso, no movimento zapatista, o pensamento crítico sem prática política é também um problema de natureza piramidal. O caminho sugerido é a abolição da propriedade e implementação ampla do comum, o que parece impossível já que a cultura que permeou o capitalismo é a da inviabilidade do comum. Um acordo coletivo seria, pois, a forma de transformar o comum em realidade, processo que se faz sempre buscando as falhas e os defeitos da organização social vigente.
Tudo isso é para escrever uma nova história: a história das classes populares, e não a história dos setores de poder. Aqui estamos, aqui seguimos apesar de tanto. Até agora, a história foi utilizada como justificativa do poder e a legitimidade das classes dominantes, ao passo que o colonialismo foi criando povos sem história. Falsificando e moldando a história a seu bel prazer, convertem a história dos herdeiros do colonialismo em ordem natural, e usam e abusam de conceitos, como o indigenismo, para integrar a essa história outros grupos sociais de forma homogênea e a-histórica, ao Estado Nacional. Expressão colonial.
Get Victória Batistela’s stories in your inbox
Join Medium for free to get updates from this writer.
Subscribe
Subscribe
Por isso, os ativistas pela memória são tão fundamentais na construção da história dos setores populares da sociedade: reivindicam que o que o governo trata como erros, como forma de limpar a reputação militar e criar pactos de impunidade, são crimes do passado. Uma vez mais, usos e abusos da história para que o governo e o poder se legitimem no presente.
A história das alternativas toma a história como arena de disputa, na qual há batalhas pela história e pela memória. Contudo é sempre necessário questionar e duvidar da história individualizante, pois a história que se conta desde baixo, deve ser contada em coletivo. A interpretação da história pelas classes populares se trata da experiência do social, e é essencialmente verdadeira frente à história dos setores dominantes.
A resistência deve converter-se em autonomia. A luta por direitos humanos pode ser uma armadilha, no sentido dos direitos humanos da ONU, podemos ficar presos numa ilusão de direitos que na verdade encarcera um pai de família que cortou lenha pra levar pra casa o combustível da cozinha. Ou então a militarização como expressão de garantia dos direitos humanos. Por isso é importante pensarmos os direitos humanos de forma crítica, para não ficarmos presos no seu paradoxo. Há de encontrar-se nossas próprias maneiras de fazer com que os direitos humanos conduzam à autonomia. Afinal, em que momento pensamos que as autoridades irão condenar seus próprios abusos? O descumprimento dos direitos humanos são crimes de poder para justamente sustentar o poder. A criminalidade opera desde as entranhas do estado. Um grupo paramilitar é militar. O paraestado é o estado. É preciso criminalizar os de cima desde baixo. Precisamos criar nossas próprias tipificações sociais, dando nome ao que está nos afetando. É preciso politizar a defesa dos direitos humanos através de uma revisão coletiva do nosso fazer. É preciso pensar numa justiça autônoma e saber a quem dirigir nossas denúncias, pois os que cima não escutam, resta fazer ressoar nossas vozes através de os de baixo, para já não mais permitir que o estado desapareça aos desaparecidos.